FIM DA UNIÃO EUROPEIA?
Para os concurseiros de plantão que se deparam com
‘Atualidades’ como uma das modalidades das provas de concursos públicos, deve
perceber que as mudanças sociais, políticas e econômicas estão cada vez mais intensas
atualmente do que em relação a outros períodos. Como podemos avaliar e
compreender o fato recente sobre o plebiscito no Reino Unido que determinou a
saída da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte do bloco
europeu? É verdade que muitas informações nos afetam diariamente acerca de
analisar as causas e consequências deste acontecimento, opiniões extremamente
variáveis podem confundir a cabeça do leitor e do aluno que prestará concursos.
No entanto, é possível pensar em algumas coisas que fazem com que pensemos o
momento crítico que estamos vivendo.
Em primeiro lugar, o embrião da União Europeia se dá a
partir do fim da Segunda Guerra Mundial, quando Alemanha e França uniram
esforços para formalizar a CECA (Comunidade Econômica do Carvão
e do Aço), no sentido de fortalecer os laços econômicos entre ambos os países
na siderurgia e metalurgia. O segundo passo foi mais forte no instante em que
França, Alemanha Ocidental, Países Baixos (Holanda, Bélgica e Luxemburgo)
assinaram o Tratado de Roma em 1957, rumando em direção ao MCE (Mercado
Comum Europeu), ampliando o número de países participantes do clube europeu,
abrindo suas fronteiras no campo comercial e de deslocamento populacional. Ou
seja, as pessoas de França, Alemanha, Itália, Suécia, Áustria e Finlândia não
necessitavam mais de obter vistos para sair de um país membro para outro. No
início, porém, os ingleses não desejavam entrar no bloco europeu, e com isso,
Alemanha Ocidental e França deram as regras do jogo político e econômico,
excluindo as chances dos britânicos de participarem de qualquer iniciativa
geopolítica. No entanto, no início da década de 1970 a Inglaterra assinou a sua
entrada no MCE, a contragosto dos franceses. Na década de 1980, Portugal e
Espanha também foram signatários do bloco comum dos países europeus apenas para
ceder mão de obra barata para as indústrias alemãs. Por este motivo, os
estudantes portugueses passaram a ter aulas de alemão de maneira intensiva.
Além disso, a Alemanha importou muita força de trabalho da Turquia, na década de
1980, e por isso, o governo turco deseja entrar na União Europeia que a
partir de 1992 pelo Tratado de Maastricht referendou a união de vários países
europeus, já com a Alemanha unificada (1990). Entretanto, o leitor deve estar
indagando as razões que levaram os ingleses a querer se retirar do bloco, que
era promissor do ponto de vista econômico, com a ampliação de um mercado cada
vez mais forte com milhares de consumidores à disposição de empresas que
poderiam atuar livremente sem pagar tarifas alfandegárias no transporte de uma
nação para outra. A questão se
torna mais complexa dentro da EU, no momento em que entram países
do leste europeu que fizeram parte da URSS (União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas), com culturas e estruturas econômicas diferentes da
parte ocidental da Europa. Outro aspecto importante está ligado ao fato de que
a Inglaterra não adotou o Euro, como moeda oficial,
permanecendo com a Libra Esterlina, pois, assim, valorizaria suas exportações para
a Europa Continental e para o mundo. De certa forma, podemos afirmar que para
aderir ao bloco europeu há condições em obedecer a um excessivo número de
regras e princípios que desestabilizaria as estruturas políticas dos países que
desejavam entrar.
Além disso, o nacionalismo, sentimento de que as
regras estão sendo impostas de fora para dentro, ou haveria uma grande
intromissão nos assuntos internos vindos de potências como Alemanha e a própria
França. Foi desta forma, que o primeiro – ministro da Inglaterra, David
Cameron, quando assumiu o mandato propôs um plebiscito[i],
que decidiria o destino da Inglaterra na EU. Ninguém esperava, contudo, que o
resultado de saída da comunidade econômica da Europa tivesse respaldo popular,
embora, as pesquisas apontavam para um resultado extremamente apertado entre os
que desejavam ficar e os que queriam sair. O mundo acordou na sexta, dia 24,
perplexo, sendo que os grupos de extrema-direita ficaram felizes, postulando
que a Inglaterra agora é dona do seu nariz, tomando decisões que grande parte
da União Europeia não levaria em consideração. Então, a questão da xenofobia
emerge, porque os que votaram pela saída da Inglaterra do bloco, defende a
concepção de que o fluxo imigratório oriundo da África e principalmente da Síria
deve ser estancado a qualquer custo para que estes imigrantes não tomem
os empregos dos ingleses. Mas a questão intrínseca é aquela que trata do medo
existente entre os ingleses com relação aos muçulmanos, que poderiam ameaçar
com ataques símbolos do mundo ocidental dentro da Inglaterra.
Contudo, precisamos vislumbrar acerca das consequências
desta saída. Em primeiro lugar, empresas e capitais estrangeiros, como os
investimentos japoneses, não terão primazia para produzir dentro da Inglaterra
e vender sua produção para o restante da Europa. O Japão sai perdendo. Por
outro lado, nem as empresas inglesas terão facilidade em negociar ou renegociar
contratos de milhões de dólares com outros países da União Europeia. Tais
contratos serão renegociados com a perda de milhares de dólares com a perda de
clientes e mercado consumidor.
Uma outra implicação do plebiscito reside na questão de
que a desvalorização da libra será uma tônica, e os países emergentes ficariam
distantes de capitais que incidiriam na América Latina. Sob o ponto de vista
social e político, outros países, como França, Holanda e Suécia poderiam realizar
plebiscitos semelhantes, deixando a zona do euro, caso os partidos de
extrema-direita vençam o pleito eleitoral nos próximos anos. Todavia, estas
consequências são apenas, por enquanto, previsões que talvez, não se
sedimentem, mas, os governos atuais de França e Alemanha devem olhar com muito
cuidado para que a fragmentação do bloco europeu seja evitada. Somente o tempo
dirá.
[i]Plebiscito
– A palavra é originada do latim, que indica plebe, isto é, o povo
possui poder de tomar decisões na produção de leis, por exemplo, e de inserir
leis em assuntos polêmicos.
Paulo Cesar Gomes de Souza é professor de História,
Filosofia e Política em faculdades e escolas públicas e particulares.
